Postagens

17- Colocar-se no lugar do outro/Putting Yourself in Someone Else’s Place

Escrito em: 08/03/2024 Depois do AVC, fui obrigado a enfrentar muito cedo a questão da acessibilidade. Eu sentia, na prática, a necessidade de interagir com o ambiente, e percebi que acessibilidade não era um detalhe — era fundamental para meu conforto e para minha evolução na reabilitação. O primeiro choque aconteceu quando voltei do hospital e descobri que eu não conseguia acessar o meu próprio quarto. Ali percebi que acessibilidade não é um conceito distante; é algo que impacta diretamente a dignidade. A minha família teve um papel decisivo nesse processo: imediatamente transformaram o escritório em quarto hospitalar e iniciaram a instalação de um elevador em casa. Mas mesmo com esses recursos físicos, eu ainda não tinha condições emocionais para usufruir dos ambientes. A parte psicológica pesa — e muito. À medida que fui me fortalecendo, comecei a explorar a casa de novo, e percebi que o próprio ambiente estimula a recuperação quando temos abertura para isso. Quando o elevado...

16- Gratidão sempre! / Gratitude Always!

Escrito em: 08/12/2023 Antes do AVC, eu enxergava a vida principalmente pelo resultado. O sucesso, para mim, era medido pelo acúmulo de bens materiais e pela capacidade de alcançar metas externas. Resultado era sinônimo de conquista visível. Um detalhe curioso — mas significativo — é que, antes do AVC, eu precisava fazer raspagem nos dentes com frequência para remover tártaro. Depois do AVC, nunca mais precisei desse procedimento. Acredito que isso simboliza um processo interno de libertação: aquilo que antes se acumulava como peso material já não encontra mais espaço, nem no corpo, nem na mente. Com o tempo, passei a ver cada ação como um processo em si. Se algo é feito com atenção total e intenção verdadeira, o resultado vem naturalmente. Hoje, o foco não está mais no final, mas na qualidade do caminho. O que precisa acontecer, acontece. Sinto uma evolução real — mental e física. As pessoas ao meu redor também percebem. Antes eu dependia de várias medicações para controlar a hiperten...

15- Harmonia nas relações/ Harmony in Relationships

Escrito em: 06/10/2023 Depois de um evento traumático, como um AVC, as relações de dependência ganham uma nova dimensão. As personalidades ficam mais evidentes e os ajustes naturais nos relacionamentos deixam de funcionar, porque qualquer acomodação forçada só amplia as diferenças entre as pessoas envolvidas. Vivemos em um mundo estruturado em relações desiguais: homem e mulher, chefe e subordinado, adulto e criança, cuidador e paciente. Quando alguém está fragilizado, esse desequilíbrio fica ainda mais exposto — e é aí que as relações precisam ser repensadas com cuidado. A empatia é essencial, e precisa ser de mão dupla. Sem empatia, tudo se transforma em julgamento e atrito. E desenvolver empatia exige maturidade espiritual — não no sentido religioso, mas na capacidade real de enxergar o outro sem filtros de ego ou superioridade. Após o AVC, percebi que muitas pessoas — familiares e amigos — tentaram justificar atitudes inadequadas minhas apenas porque eu estava em recuperação. Isso ...

14- O AVC como professor/ Stroke as a Teacher

Escrito em: 07/07/2023 Há cinco anos recebi o diagnóstico de hemiplegia esquerda — a limitação de movimento de um lado do corpo. À primeira vista, é algo que assusta. Mas quando perguntei se deveria ter medo, a resposta foi clara: não. E esse foi o ponto de virada. Percebi que as dificuldades poderiam ser uma poderosa fonte de aprendizado, e que experiências duras também fazem parte da construção da nossa evolução. Mesmo com a hemiplegia, não me senti derrotado. Escolhi aceitar e mergulhar de cabeça no processo. Como faço parte de uma escola filosófica, sei que cada pessoa tem seu próprio tempo e caminho evolutivo. Se aquilo estava acontecendo comigo, era porque eu precisava daquela experiência para crescer. Essa consciência tornou tudo mais leve. Depois do AVC, comecei a enxergar padrões de comportamento que eu não via antes — principalmente nos relacionamentos. Percebi que muitas vezes eu reagia com agressividade, seja no discurso, seja na postura. Era uma forma de compensação. Com o...

13- O caminho da evolução/ The Path of Evolution

Escrito em: 16/06/2023 Na vida, todos nós buscamos um sentido — a sensação de que aquilo que fazemos e sentimos está alinhado com quem queremos ser e com a direção que estamos seguindo. Para mim, evolução é exatamente isso: um caminho contínuo, construído pelas pessoas, acontecimentos e escolhas que cruzam nossa jornada. Nada é por acaso, e tudo deixa aprendizado. Quando olho para minha história, inclusive para o AVC que vivi, enxergo esse fato não como um erro ou negligência, mas como parte desse caminho evolutivo. A causa foi uma má formação dos vasos cerebrais, e não falha no controle da pressão arterial. Entender isso tirou o peso da culpa e trouxe serenidade para atravessar aquele momento difícil. Aprendi que o conhecimento só faz sentido quando vem de uma base filosófica séria, onde existe responsabilidade de quem ensina e compromisso de quem aprende. Disciplina e exemplo são fundamentais. Quando essa estrutura existe, o conhecimento transforma — e transforma para melhor. A vida ...

12- A confiança no bom/ Trust in the Good

Escrito em: 26/05/2023 Sou psicólogo de formação e essa escolha profissional, somada ao modo como fui construindo meu olhar sobre o mundo, moldou profundamente quem eu sou hoje. Sempre busquei entender o ser humano para além do óbvio, e isso me levou a estudar diversas vertentes de conhecimento: esoterismo, numerologia, astrologia, tarô, quiromancia — caminhos que, concorde-se ou não, ampliaram minha percepção sobre mim mesmo e sobre a vida. Acredito que ninguém caminha totalmente sozinho. Chame de mentor, mestre, consciência superior ou até intuição: existe uma força que orienta quando estamos atentos e dispostos a aprender. Para mim, essa ideia sempre fez sentido — a de que existem referências mais evoluídas que nos acompanham e que nos ajudam a manter o rumo, principalmente quando a vida desafia. No processo de adoecimento, isso fica evidente. Apoio externo é bem-vindo, mas a força real nasce de dentro. A travessia é individual — porque, no fundo, é sempre a nossa mente que interpre...

11- A construção de um EU mais forte /Building a Stronger Self

Quando a vida tira o chão, a gente é obrigado a encarar o que estava empurrando com a barriga. Ficar doente, no meu caso viver um AVC, foi como receber um chamado direto: ou eu mudava, ou ficava parado no tempo. E parar nunca foi uma opção. No começo, a hemiplegia assusta. O corpo não responde, a cabeça corre mais rápido que as pernas e o medo tentam tomar conta. Eu me perguntava se ia voltar ao normal, se minha recuperação seria total. Com o tempo entendi que reabilitação não é um evento — é um caminho, e que a velocidade desse caminho depende da nossa disposição interna para mudar. E aí está o ponto: mudar não é confortável. Manter tudo como está é sempre mais fácil. Mas, quando a mudança bate à porta, você precisa encarar o espelho sem filtro. Não dá para ser duas versões de si mesmo ao mesmo tempo. Ou você muda de verdade, ou não muda. E mudança real exige coragem, ação e abandono dos medos que seguram a gente no mesmo lugar. Para mergulhar fundo nessa transformação, precisei de um...