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24 - Humores e temperos nas relações humanas/ Moods and Seasonings in Human Relationships

Escrito em: 22/08/2024 Depois do AVC, passei a prestar atenção em tudo de um jeito que antes não prestava. Antes, eu tratava muita coisa como se fosse igual. As informações ficavam na cabeça; no coração, eu guardava só o que era mais íntimo: família, filhos, amigos. Hoje, entendo que a maior parte das coisas fica, sim, no coração — mesmo quando a gente finge que é só racional. Isso ficou muito claro nas relações com cuidadores e profissionais de saúde. Antes, eu avaliava as pessoas quase só pelo lado funcional: assiduidade, pontualidade, competência técnica, comunicação rápida e objetiva. Depois do AVC, comecei a perceber coisas mais sutis, mas decisivas: o tom de voz, a intenção por trás da fala, a presença (ou ausência) de empatia, as crenças internas de cada um — que, mesmo sendo internas, interferem diretamente na relação externa — além de valores morais, senso de responsabilidade e respeito. Ao longo da reabilitação, fui aprendendo a me relacionar melhor com terapeutas e cui...

23- O medo controlado/ Controlled Fear

Escrito em: 08/08/2024 O medo é um mecanismo de defesa poderoso. Em certos níveis, protege. Em excesso, paralisa. Ele não afeta apenas o emocional — interfere no corpo inteiro, inclusive nas funções vitais. A pergunta central não é se teremos medo, mas como mediá-lo. E a mediação acontece por meio do conhecimento. Conhecimento gera prudência. Prudência é saber dosar riscos sem se sabotar. Quando isso acontece, a razão ocupa o lugar que deveria ter desde sempre: o de conduzir as decisões. Na minha experiência pessoal, quando constatei a hemiplegia ainda na UTI, a pergunta foi inevitável: devo ter medo? Foi aí que o conhecimento filosófico falou mais alto. A resposta foi clara: não. Porque, no fim, “o melhor acontece a cada um” — ainda que esse “melhor” nem sempre venha com a forma que imaginamos. Ao longo da reabilitação, o medo precisou ser reconhecido e trabalhado. Durante os treinos de marcha com os fisioterapeutas, ficou evidente que o desequilíbrio faz parte do processo. Eu...

22- A importância da compreensão sobre a Visão/ The Importance of Understanding Vision

Escrito em: 01/08/2024 Antigamente, onde estavam as pessoas com deficiência? Quando éramos crianças, muitos de nós não se lembram de conviver com elas. E isso não era coincidência. Pessoas com deficiência existiam, como sempre existiram, mas eram mantidas fora do convívio social — muitas vezes escondidas pelas próprias famílias. Por quê? Porque a sociedade não estava preparada para incluir. E as famílias, com medo da discriminação, optavam pelo isolamento como forma de proteção. O problema é que esconder não resolve. Apenas adia o enfrentamento. O fato de algo não ser visto não significa que não exista. Significa apenas que foi ocultado. Esse é um ponto central no processo de aprendizagem — especialmente aquela mediada por um mestre. Mestre não é só quem ensina conteúdo formal. É quem ajuda a revelar o que não é imediatamente perceptível: professores, instrutores, líderes bem-intencionados, amigos, referências familiares. Pessoas que ampliam nosso campo de visão. O olho hum...

21- Sensibilidade e respeito/ Sensitivity and Respect

E scrito em: 05/07/2024 Qualidade moral não é discurso bonito nem algo que se proclama. É aquilo que, mesmo sendo interno, aparece claramente nas atitudes, nas escolhas e na forma de se relacionar com o outro. É prática, não teoria. O problema é que muita gente não reconhece suas próprias qualidades morais — e menos ainda as dos outros. Em grande parte, isso acontece porque enxergar de verdade exige disposição para encarar aquilo que incomoda. E nem todo mundo está pronto para isso. Para entender melhor esse ponto, vale falar do ego grupal. Todos nós, como seres sociais, fazemos parte de grupos que moldam valores, comportamentos e formas de pensar. O ego grupal é justamente esse conjunto de referências que influencia nossas decisões. Ter qualidade moral é conseguir escolher conscientemente a quais grupos vale a pena pertencer — e, mais importante, ter liberdade para sair deles quando deixam de fazer sentido. Essa liberdade só existe quando não há medo de perder aprovação, statu...

20- Evolução exige mudança interna! / Evolution Requires Inner Change!

Escrito em: 27/06/2024 Continuando a reflexão sobre evolução, é preciso deixar algo claro: não existe evolução sem mudança. E a mudança mais difícil — e mais necessária — é a interna. Mudança interna é aprender a lidar com as próprias reações. Especialmente aquelas respostas automáticas do ego, do instinto, que pouco têm a ver com razão. Quanto mais a gente reconhece esses impulsos e reduz a intensidade com que eles nos dominam, mais avançamos como pessoas. Antes do AVC, eu me dava justificativas — muitas vezes frágeis — para reações claramente inadequadas. Depois do AVC, passei a enxergar essas reações como o que realmente são: respostas instintivas, sem base racional. E quando a justificativa cai, sobra apenas a responsabilidade de dominar a reação. A agressividade é um exemplo claro. Antes do AVC, ela fazia parte da minha forma de me comunicar. Depois, passou a ser algo a ser controlado, porque não havia razão que a sustentasse. Outro exemplo: eu sempre escolhia sentar de fr...

19- Tudo é bom! / Everything Is Good!

Escrito em: 07/05/2024 Hoje quero falar de evolução — não da versão idealizada, de livro didático, mas da que a gente vive na pele. Nem tudo o que se fala sobre evolução tem respaldo científico formal. E tudo bem. Isso não invalida a observação honesta, baseada na experiência e no método científico básico: observar, comparar, refletir e concluir. Foi assim que muita coisa importante avançou. O que compartilho aqui não nasceu de teoria solta. Vem de décadas de estudo e, principalmente, de vivência real: como ser humano, psicólogo, empregado, empregador, pai de família e participante de uma escola filosófica há mais de 35 anos. A vida ensina — desde que a gente esteja disposto a aprender. A ciência descreve uma parte muito antiga do cérebro humano, ligada ao instinto, à reação imediata, à sobrevivência. É o chamado cérebro reptiliano. Répteis são excelentes sobreviventes. O ser humano herdou isso. Mas foi além: além do instinto, temos consciência e espiritualidade, que obedecem a leis ma...

18- Respeito! /Respect!

Escrito em: 04/04/2024 Acessibilidade não acontece por acaso. Ela é resultado de escolhas claras — pessoais e coletivas. Envolve arquitetura, equipamentos, cultura, leis, políticas públicas, empatia e educação. Quando um desses pontos falha, o respeito também falha. A arquitetura é o primeiro teste de caráter de uma sociedade. Rampas, elevadores, banheiros adaptados e sinalização não são luxo nem favor. Eles tornam visível se alguém pensou no outro ou simplesmente ignorou sua existência. O espaço revela valores. Equipamento é o que permite à pessoa com deficiência fazer o que precisa ser feito com autonomia. Cadeira de rodas, próteses, dispositivos de apoio e tecnologia assistiva não devolvem privilégios — devolvem função, dignidade e independência. A cultura define o quanto uma sociedade está disposta a respeitar quem precisa de adaptação. Em muitos países europeus, o foco é autonomia. No Brasil, ainda predomina o assistencialismo: ajuda-se, mas não se emancipa. Essa diferença...